Há quem corra da dor como se ela fosse um inimigo a ser vencido.
Eu não.
Eu escolhi me aproximar dela.
Não com coragem heroica, nem com respostas prontas, mas com a sensibilidade de quem escuta um segredo antigo.
Porque existem dores que gritam, que exigem atenção imediata.
Mas existem outras, mais sutis, quase imperceptíveis, que sussurram dentro de nós enquanto reorganizam silenciosamente o nosso caos.
E foi nesse silêncio que tudo começou a mudar.
Foi ali que percebi que o sofrimento não era apenas dor.
Era linguagem.
Uma linguagem íntima, profunda, quase esquecida, algo dentro de mim tentando dizer: “olhe mais fundo.”
E eu olhei.
Comecei a desmontar memórias que antes pareciam intocáveis.
Questionei sentimentos que eu apenas aceitava.
Dei nome ao que, por tanto tempo, foi apenas um peso indefinido no peito.
E, pouco a pouco, aquilo que era sombra começou a ganhar forma.
Porque o que não tem nome nos domina. Nos confunde. Nos consome.
Mas o que é compreendido começa a se dissolver.
Minha cura não foi esquecer o que aconteceu.
Foi entender.
Não foi apagar o passado.
Foi iluminar cada parte dele que ainda vivia em mim, escondida, esperando ser vista.
Hoje eu sei: a dor que eu tanto temia não era um fim, era um convite.
Um chamado para olhar para dentro com mais honestidade, mais presença, mais verdade.
E toda vez que eu compreendo um pouco mais sobre o que me feriu, algo dentro de mim se reorganiza.
Eu me reconstruo.
Não como quem volta ao que era antes, mas como alguém que, agora, se conhece melhor.
Mais inteiro.
Mais consciente.
Mais verdadeiro.



